domingo, 16 de dezembro de 2012

Eugenia. O Racismo Científico.

O que é Eugenia?

eugenia
 
 
Durante o Século XIX o mundo conheceu o pior aspecto da ciência.
 
Escritores, filósofos e cientistas desenvolveram, criaram ou apoiaram ideias e teorias para justificar assassinatos em massa durante muito tempo.
 
Mais tarde, no século XX, essas teorias seriam usadas para justificar mais e mais assassinatos de supostos seres humanos de raças inferiores.
 
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Robert Knox
Em 1820, o Médico cirurgião Dr. Robert Knox de Edimburgo (1791-1862) era o mais importante cientista racial da Inglaterra.
Baseado tão somente em estudos de esqueletos, cadáveres e sobretudo de crânios, ele criou, com muita aceitação as bases para um novo tipo de racismo. O racismo científico.
 
Robert Knox caiu em desgraça em meados dos anos 1820 acusado em um escândalo de roubo de cadáveres, fugindo da Grã Bretanha.
 
Ele comprava cadáveres de dois bandidos pé de chinelo que ao ver que poderiam vender defuntos para o Dr. Knox tornaram-se uma dupla de serial killers.
 
Existia uma espécie de pousada para viajantes, pequena e barata, eles trabalhavam como cobradores de aluguel ou das diárias desta pensão. Aproveitavam-se de que os hóspedes eram viajantes desconhecidos os assassinavam para vender seus corpos sem vida para o Dr. Robert Knox; os preços variavam entre 7 e 10 libras algo como entre 500 e 800 dólares hoje em dia, muito dinheiro para a época. Entre 16 e 20 pessoas foram mortas pela dupla e seus corpos foram comprados por Knox.
 
Os assassinos foram descobertos por uma hóspede que retornou por ter esquecido um par de meias francesas em um dos quartos, ela estava acompanhada do marido e ao procurar a meia sob a cama viu um dos cadáveres.
 
Os dois assassinos foram presos; um dos assassinos fez um acordo com a justiça: ele ficaria livre de qualquer acusação caso contasse toda a verdade.
 
Ele denunciou o amigo e o Dr. Robert Knox.
 
O amigo foi enforcado, suas últimas palavras foram:
 
E o doutor?
Nada vai acontecer com ele?
 
O assassino que fez o acordo, mais tarde foi perseguido por uma multidão enraivecida, caiu em um poço de cal, ficou caolho e morreu na miséria, provavelmente de fome. Robert Knox caiu em desgraça, nunca mais exerceu a medicina, trabalhou como jornalista e ficou na obscuridade por muito tempo.
 
capa do livro de Knox
Livro The races of man
Em 1840 O Dr. Knox volta ao cenário do Racismo Científico com a publicação do livro: The races of man: a fragment (As raças humanas: um fragmento ... ou As Raças do homem: Um Fragmento…).
 
Neste livro, dentre muitas afirmações podemos destacar:
 
“…Que a raça decida de tudo nos negócios humanos é simplesmente um fato, o fato mais notável, mais geral que a filosofia jamais anunciou. A raça é tudo: a Literatura, a Ciência, a Arte [...] a civilização dela depende…”
 
“… As raças negras podem ser civilizadas? Eu devo dizer que não…”
 
“…Agora, esteja a Terra superpopulosa ou não, uma coisa é certa, os fortes sempre irão se apoderar das terras e das propriedades dos fracos. Estou convicto de que esta conduta não é, em absoluto, incompatível com a mais elevada moral e mesmo com o sentimento cristão…”
 
“…A raça saxônica jamais as tolerará, jamais se miscigenarão e jamais viverão em paz. É uma guerra de extermínio…”
(As citações acima são de Robert Knox, The Races of Men Philadelphia, PA: Lea & Blanchard, 1850)
 
Olha, escrever sobre a “raça saxônica” é muito difícil e complicado. Eu já assisti uma palestra gravada onde um proeminente historiador dizia:
 
“…Ninguém sabe verdadeiramente quem foram os saxões…”
 
Mas a história formal está repleta de referências a Saxônia.
 
A Saxônia:
 
O termo “saxão” vem do proto-germânico “sahsan”, que significa "faca".
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Monge Beda
 
As referencias mais antigas e de certa forma confiáveis são do século VIII onde o Monge Beda (monge beneditino), conta que no início do século V, três tribos germânicas invadiram e colonizaram o sul e o leste da Grã-Bretanha:
 
Os Angles (Anglos), que provavelmente vieram de Angeln (em alemão moderno).
 
A palavra Inglaterra em inglês England viria do inglês antigo Engla land ou Ængla land.
 
Os saxões, uma tribo da hoje conhecida como a “Baixa-Saxônia” (em alemão moderno: Niedersachsen).
 
E os Jutos possivelmente uma tribo da península da Dinamarca chamada de Jutlândia (em dinamarquês moderno: Jylland).
 
Como podemos ver, é tudo na base do “possivelmente”, “provavelmente” do “talvez”.
 
Há séculos os ingleses tentam encontrar provas de uma origem “nobre”, “heroica” “uma raça superior” ou um “berço nobre” para os seus antepassados. O fato é que a ilha hoje chamada de Inglaterra, foi invadida por todos os lados e por vários povos ao longo dos séculos. O principal povo invasor foram os romanos, que não só invadiram, mas colonizaram e se fixaram lá por mais de 400 anos. No século XXI, é no mínimo ridículo querer falar sobre raça pura na Inglaterra ou em todo o Reino Unido e no século XIX era igualmente ridículo.
 
Samuel George Morton
Samuel George Morton
A hipocrisia do chamado Racismo Científico não estava restrito a Inglaterra.
Nos Estados Unidos um médico chamado Samuel George Morton especialista em crâniologia liderou um grupo que reunia crânios de diversas “raças” para fazer comparações; nesses estudos eles afirmavam que os crânios das raças tinham vários tamanhos e que quanto maior o tamanho, maior o cérebro, quanto maior o cérebro maior a inteligência e a capacidade de evolução, sobrevivência, liderança etc. Só que eles achavam os crânios europeus e americanos sempre maiores que os crânios africanos, tasmanianos, malaios, mongóis e índios americanos.
 
Dando prosseguimento as suas teorias, eles fizeram as mesmas comparações com crânios de outras espécies de animais, e encontraram (é óbvio) vários tamanhos de crânios no reino animal e decidiram que o animal com maior caixa craniana era mais inteligente e mais evoluído que o animal com menor caixa craniana e menor cérebro. Sendo assim, o ser humano com uma caixa craniana menor, tinha um cérebro menor e portanto era menos evoluído, podendo segundo suas conclusões, nem ao menos ser considerados humanos, estando próximo a um animal irracional.
 
O Darwinismo Social:
Charles Darwin
Charles Darwin
 
Charles Darwin o pesquisador e autor do livro A Origem das Espécies mostra que na natureza existe uma certa hierarquia entre as espécies; o animal, seja um inseto ou um mamífero mais especializado, “vence” e supera o animal menos especialista.
Assim, o evolucionismo de Darwin foi usado como desculpa para justificar o expansionismo branco sobre as outras raças.
 
O raciocínio era o seguinte: se na natureza o animal mais forte vence o mais fraco por ser mais especializado, por que negar isso ao ser humano?
 
O branco (seja europeu ou não) se expande porque é mais especializado, mais inteligente e eliminar as raças mais fracas, é apenas uma consequência, e uma consequência muito natural. Os partidários dessas teorias, ficaram conhecidos como Darwinistas Sociais.
 
Thomas Henry Huxley
Thomas Henry Huxley
O biólogo inglês Thomas Henry Huxley (1825-1895) ganhador da medalha de ouro em anatomia e fisiologia da Universidade de Londres, descobridor de uma camada interna dos fios de cabelos (a camada de  Huxley) descobridor de novos espécimes de animais (na Austrália e Nova Guiné), o criador do termo agnosticismo, chamado de O Buldogue de Darwin era defensor do Darwinismo social.
 
No Brasil também houve defensores do Darwinismo Social.
 
As Conferências Populares da Glória:
 
Foram reuniões públicas realizadas no Colégio Estadual Amaro Cavalcanti (a época chamava-se escola da Freguesia da Glória), que na verdade fica localizado no Largo do Machado no Bairro do Catete (tudo muito próximo, para você que não conhece o Rio de Janeiro).
 
Essas reuniões organizadas pelo conselheiro Manoel Francisco Correa (1831-1905), que foi advogado, senador do império, deputado geral em três mandatos, foi presidente da província de PernambucoManoel Francisco Correa (equivalente a governador de estado hoje em dia), sócio fundador da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Formado em Humanidades na Faculdade de Direito de São Paulo, foi agraciado com a grã-cruz da ordem da Conceição de Vila-Viçosa e de Cristo de Portugal, além da ordem da coroa de ferro da Áustria e de Sant´anna da Rússia.
 
Ele criou as Conferências Populares da Glória em 1873 com o objetivo de propagar as ciências, as artes e a literatura na capital do Império Brasileiro. Políticos, médicos, advogados, escritores, jornalistas, parlamentares, além do Imperador Dom Pedro II e a Família Imperial, assistiam às conferências que ocorriam aos domingos pela manhã.
 
As teorias de Charles Darwin foram apresentadas pela primeira vez nas Conferências da Glória pelo médico Augusto Cezar de Miranda Azevedo (1851-1907) em 1875.
 
O tema da palestra foi: Darwinismo: Seu Passado, Seu Presente, Seu Futuro.
 
 
Augusto Cezar de Miranda Azevedo:
Augusto Csar de Miranda Azevedo
Augusto Cezar de Miranda Azevedo
Foi médico, historiador, jornalista e político, primeiro redator da Revista Médica do Rio de Janeiro, Presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo (1897-1898), foi deputado estadual em São Paulo e um republicano fervoroso.
 
Defendeu uma tese acadêmica com o título:
 
Do darwinismo: "É aceitável o aperfeiçoamento completo das espécies até o homem?"
 
Nas Conferências Populares da Glória, o Dr Augusto Cezar Miranda Azevedo, destacou que o Darwinismo “…forneceria o instrumental para se pensar e resolver os problemas da sociedade brasileira…” e ele ao disseminar as ideias de Darwin estaria prestando um "serviço à pátria e ao povo".
 
Agora vem a parte que mais interessa, o Darwinismo Social:
 
O Dr Augusto Cezar tinha uma proposta de aplicação prática das teorias de Darwin que seria na convocação para o Serviço Militar!
 
Ele alegava que os melhores, os mais saudáveis eram levados para o campo de batalha enquanto os deficientes, e fracos ficavam para procriar e isso é claro dentro de sua ideologia gerava brasileiros mais fracos e doentes.
 
O Dr Augusto Cezar Miranda de Azevedo acreditava assim como todos os adeptos do Darwinismo Social que havia uma hierarquia na espécie humana, haveria os sadios, os fortes, os inteligentes e em contrapartida haveriam os fracos, os doentes e os menos inteligentes e capazes.
 
Segundo ele, os inferiores gerariam filhos predestinados a serem inferiores e o os superiores predestinados a terem descendentes superiores. Seria um “determinismo hereditário”.
 
Em 1918 foi fundada A Sociedade Eugênica de São Paulo; assim, o Brasil ficou sendo o primeiro país da América do Sul a ter um movimento eugênico organizado.
 
Renato Ferraz kehl
Renato Ferraz Kehl
Em 1931 foi criado o Comitê Central de Eugenismo, presidido por Renato Ferraz Kehl e Belisário Penna que propôs o fim da imigração de não-brancos, para:
 
"prestigiar e auxiliar as iniciativas científicas ou humanitárias de caráter eugenista que sejam dignas de consideração" (Revista Brasileira de Enfermagem).
 
Herbert Spencer
Herbert Spencer
Herbert Spencer  (1820-1903). Foi um economista e filósofo positivista inglês que defendeu o Darwinismo Social com unhas e dentes, mesmo sem nunca ter usado a expressão Darwinismo Social ele é considerado o pai da sistematização desta crença.
 
Não podemos esquecer que o positivismo foi a escola filosófica que inspirou a proclamação da república no Brasil.
É dele a expressão:
 
"sobrevivência do mais apto".
 
O Darwinismo Social foi usado para justificar ou justificou inúmeras politicas genocidas nas colônias europeias na África, América do Sul, América do Norte e na Índia, a aniquilação por completo de sociedades tidas como inferiores ou a dizimação de raças e culturas quase que por completo:
 
malaios, tasmanianos (na Tasmânia, Austrália), índios norte-americanos, indianos e povos africanos como por exemplo os hererós na Namíbia; e mais tarde já no século XX, os judeus na Europa.
 
Milhões de seres humanos das assim chamadas “raças inferiores” foram mortos, em geral, brutalmente ou de fome e sede.
 
Lorde Lytton o Vice-Rei da índia era adepto do darwinismo Robert Bulwer Lyttonsocial, ficou famoso dentre outras coisas por ter organizado e oferecido um banquete para mais de 60.000 pessoas em 1876, (considerado por muitos como a maior festa do mundo), enquanto no mesmo ano na Índia mais de 10 milhões de pessoas morriam de fome literalmente nos territórios ocupados pelos ingleses, pessoas cometeram canibalismo, venderam suas filhas por um punhado de arroz e muitos, muitos cometeram suicídio enquanto Lytton e seus convidados se empanturravam por mais de uma semana com o que foi considerado o maior banquete da história. (leia o artigo O Maior Banquete da História clique aqui).
 
O sucesso estupendo dos genocídios cometidos pelos europeus em continentes longínquos não tardou a voltar-se para dentro de seu próprio seio. Raça e classe começaram a se confundir; o conceito de que raça e classe eram a mesma coisa, começou a se fundir e não demorou para que o “Darwinismo Social” tornar-se uma ciência discriminatória não apenas de raças classificadas inferiores, mas também de classes inferiores ainda que essas raças tivessem nascido e vivessem no bairro ao lado.
 
Começaram  a enxergar inferioridade do ser humano nas classes operárias de suas próprias cidades e países.
 
Na Inglaterra desde muitos séculos existem referências aos Cockneys.
Seria impossível aqui, explicar corretamente todos os aspectos que envolvem os Cockneys; livros, tratados etimológicos e léxicos já foram escritos sobre o assunto. Vou tentar resumir em poucas palavras o que é um Cockney; entre muitíssimas aspas, com uma comparação tosca sem muitos refinamentos de minha parte; peço antecipadamente mil perdões por qualquer incorreção minha ou se por ventura ferir alguma susceptibilidade:
 
Seria de uma maneira geral, como o nosso caipira interiorano, de fala diferente da população em geral; às vezes falando errado, a maioria trabalhadores em empregos simples, às vezes braçais e  sem necessidade de muito estudo.
 
Bom, os Cockneys na Inglaterra não são emigrantes, são filhos da própria terra. Logo que as politicas genocidas justificadas pelo Darwinismo Social deram certo, os Darwinistas Sociais se voltaram para Londres e os Cockneys. Começaram a estudar seus crânios e mapear onde viviam e é claro chegaram a conclusão que eram mais violentos que os outros ingleses e menos capazes, menos inteligentes.
 
Um  cientista que passou a visitar as cadeias para estudar as cabeças dos criminosos e estabelecer uma relação classe-raça inferior foi Francis Galton (1822-1911) nada mais nada menos que primo de Charles Darwin.
 
Francis Galton:
Francis Galton
Francis Galton
 
Inteligentíssimo, seu Q.I. foi estimado em 200. Foi matemático, escritor de sucesso (produziu mais de 340 artigos e livros em sua vida), explorador (viajou por toda a África fazendo descobertas científicas), antropólogo, meteorologista, inventor (principalmente de instrumentos de medição meteorológica) e estatístico.
 
Era um pesquisador voraz e dentre as suas áreas de interesse estavam algumas muito interessantes para um racismo científico; veja algumas delas:
Ele desenvolveu pesquisas sobre a distribuição geográfica da beleza.
 
Pesquisou e escreveu sobre as impressões digitais.
 
Ele também criou o conceito estatístico (usado até hoje) de correlação; a  regressão em direção à média (ótimo para justificar matematicamente coisas injustificáveis na prática).
Ok, escreveu também sobre: moda, levantamento de peso, a eficácia das orações religiosas, inventou aparelhos diversos como um abridor de cadeados, periscópios e um tipo de impressora precursora do teletipo. Mas o assunto aqui é racismo científico. (para mim, pouco importa se ele foi o maior gênio que a humanidade conheceu, no meu entender ele foi um imbecil).
 
Galton foi o primeiro a usar métodos estatísticos para o estudo das diferenças humanas de inteligência (segundo ele e os Darwinistas Sociais, essas diferenças seriam hereditárias).
Formulou questionários para coletar dados sobre as comunidades humanas para os seus estudos antropométricos com o intuito explícito de corroborar suas teses racistas, mas sempre acompanhado de subterfúgios como genealogias e biografias. Criou a psicometria (a ciência da medição de faculdades mentais) e a psicologia diferencial. (mais tarde a psicometria foi desvirtuada ou usada como sendo (ou se tornando) uma faculdade paranormal, a capacidade de “enxergar” imagens e sentir vibrações a partir de objetos.
 
Como primo de Charles Darwin evidentemente era especialista em seus livros e teorias (Origem das Espécies) e como outros, acreditava que o que se podia aplicar no reino animal, poderia e deveria ser aplicado ao ser humano.
 
Francis Galton acreditava que a “raça” humana poderia ser melhorada caso fossem evitados “cruzamentos indesejáveis”.
 
Propôs o desenvolvimentos de testes de inteligência para selecionar homens e mulheres brilhantes, destinados à reprodução seletiva.
 
Sendo assim, Francis Galton criou em 1883 o termo Eugenia, que significa "bem nascido". Galton definiu da seguinte maneira a Eugenia:
 
“…É o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente…”
 
O que aconteceu é que Francis Galton  estava muito preocupado com o crescimento das chamadas classes inferiores e a estabilização do crescimento da classe média e das classes abastadas da qual ele fazia parte como homem riquíssimo, filho de um próspero banqueiro. Com o crescimento das “classes inferiores” o que estava acontecendo era o contrário da Teoria de Darwin: Os inferiores não só estavam sobrevivendo como estavam se proliferando.
 
A Eugenia, a ciência criada por Francis Galton propunha o incentivo ao aumento da natalidade nas classes média e alta e inibição da procriação das “classes inferiores” e dos criminosos.
 
O fato é que a eugenia foi amplamente aceita pelos cientistas; era moderno, era “científico”.
 
No final do século XIX e mesmo em boa parte do século XX muitos entusiastas da eugenia e eugenistas declarados  tinham orgulho disso:
 
George Bernard Shaw
 
Bernard Shaw: Foi membro da Sociedade Fabiana junto com H. G. Weels, Escreveu Pigmaleão (Pygmalion ou My Fair Lady) onde fica evidente sua análise sobre as classes ou se preferir, raças.
No Documentário The Soviét. Story de Edvins Snore, Bernard Shaw aparece defendendo o nazismo e o extermínio de todos os "parasitas sociais", pessoas não adaptadas e inúteis para a sociedade. Foi acusado (no mesmo documentário) de ter feito um apelo através do Jornal Listener (em 1933) para que os químicos desenvolvessem um gás letal com a finalidade de matar seres humanos "inadequados". foi ganhador do Prêmio Nobel e do Oscar.
 
H G Wells
H.G. Weels
H.G. Weels: foi membro da Sociedade Fabiana junto com George Bernard Shaw e foi aluno de biologia de  Thomas Henry Huxley um dos precursores do Darwinismo Social como comentei acima.
 
Conhecido mundialmente por sua obra literária como os romances: A Máquina do Tempo, O Homem Invisível e A Guerra dos Mundos; todos best sellers e todos sucessos também no cinema.
O livro a Guerra dos mundos foi transposto para o rádio em 1938 por Orson Welles; essa transmissão radiofônica ficou famosa mundialmente por provocar pânico nos ouvintes, que imaginavam estar enfrentando uma invasão real de extraterrestres.
 
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Philipp Lenard
Philipp Lenard: Philipp Eduard Anton von Lenard (alemão nascido na Hungria) Prêmio Nobel de Física de 1905 por suas pesquisas sobre os raios catódicos e a descoberta de muitas de suas propriedades.
 
Após ler alguns artigos de Albert Einstein ficou indignado por Einstein ser um teórico e não um experimentador como ele.
 
Escreveu vários artigos denegrindo Albert Einstein e acabou o desafiando para um debate público.
 
Albert Einstein
Albert Einstein
Einstein aceitou o desafio, e mais que isso, arrasou com Lenard e levou a plateia a acreditar que seu opositor era algo como um dinossauro da ciência.
Isso enfureceu Philipp Lenard que desde este momento passou a hostilizar publicamente Einstein chamando-o de judeuzinho ridículo e coisas mais "fortes" que isso.
Mais tarde Philipp Lenard filiou-se ao Partido Nazista tornando-se um Nazista exemplar além de Eugenista entusiasmado.
 
Infernizou a vida de Albert Einstein a tal ponto que só restou uma saída ao físico alemão: Fugir para os EUA.
 
Frase de Philipp Lenard Prêmio Nobel de Física de 1905:
 
Existem duas ciências a verdadeira ciência: compreensível, comprovável e praticável e a ciência judaica: fantasiosa e absurda.
 
Wiston Churchill
Winston Churchill
Winston Churchill: Foi um defensor da higiene racial; isso fica evidente na matéria da Times Magazine escrita por Paul Gray em 11 de Janeiro 1999 intitulada “Cursed by Eugenics” (Amaldiçoado pela Eugenia). Não pude reproduzir aqui trechos desta matéria em função de problemas de direitos autorais.
 
 
 
Eugen Fischer
Eugen Fischer
 
 
 
 
Em 1908 um “cientista” eugênico chamado Eugen Fischer, (a palavra eugenia nada tem a ver com o nome Eugenio ou Eugen como vimos acima) viajou para a cidade de Rehoboth na Namíbia.
 
Fischer e um punhado de assistentes passaram meses fotografando, medindo e examinando os habitantes de Rehoboth.
 
Todas as pesquisas de Eugen Fischer estão arquivadas em uma repartição pública da Namíbia até hoje: Fotos, medidas de rostos e crânios e ainda páginas e mais páginas de estudos racistas querendo provar a inferioridade do povo negro africano e que se miscigenado ao do homem branco com o povo negro africano o gene africano negro irá prevalecer e o resultado será, por mais branco que seja, um ser humano inferior. Mais tarde Eugen Fischer trabalharia para os Nazistas como veremos mais adiante.
 
Após esses estudos, a reputação de Eugen Fischer foi as alturas e o país que mais gostou, adotou e financiou muitas de suas ideias e teorias foi os Estados Unidos.
 
Nos Estados Unidos no início do século XX a Eugenia cresceu sem controle, sobretudo com investimentos maciços nestes estudos por parte da elite dominante.
 
Dinheiro arrecadado por eugenistas norte-americanos foi usado por um dos eugenistas americanos mais infames que existiu naquele pais: Charles Davenport.
 
Charles Davenport
Charles Benedict Davenport
Charles Benedict Davenport (1866-1944), foi Doutor em biologia com pós-graduação em zoologia, professor de zoologia na Universidade de Harvard, especialista em taxonomia, entusiasta da biometria (não a biometria eletrônica de hoje, usada para identificação de pessoas para que essas tenham acessos a sistemas informatizados e sim a medida de seres humanos, ossos, crânios, dimensões faciais, para fins de classificação dos seres humanos em superiores e inferiores), foi diretor do Cold Spring Harbor Laboratory.
 
Charles Davenport, foi responsável diretamente pela esterilização de mais 60.000 seres humanos nos EUA (cerca de 50% no Estado da Califórnia), mais outros tantos milhares indiretamente, todos considerados por ele como “impróprios” a se reproduzir. Foi o americano de maior influência no Holocausto na Europa. Foi o criador e fundador do Escritório de Registros Eugênicos (1910). Escreveu o livro A Hereditariedade em Relação a Eugenia que foi leitura obrigatória em várias faculdades por anos a fio. Com esse currículo foi eleito para ocupar uma cadeira na Academia Nacional de Ciências Norte-Americana. Em 1925, junto com Eugen Fisher (citado acima), foi fundador do IFEO, Federação Internacional das Organizações de Eugenia.
 
Escritrio de Registros Eugnicos
Escritório de Registros Eugênicos (1910) - EUA
 
Em 1912 foi fundado o Comitê Internacional de Eugenia, presidido pelos EUA, e o centro eugênico em Cold Spring Harbor era base de treinamento de eugenistas do mundo todo.
Davenport manteve ligações públicas com várias instituições Nazistas, antes e durante a Segunda Guerra Mundial, escreveu em jornais alemães de cunho racista, apoiou direta ou indiretamente as ideias de limpeza étnica perpetrado pelos alemães nazistas. Para o público americano no entanto,  dizia ser contra o nazismo.
 
Com o apoio das elites norte-americana a Eugenia tomou proporções quase religiosas; inclusive tendo o seu próprio “Credo”.
 
O Credo Eugênico:
  • Eu acredito no esforço para elevar a raça humana para um plano mais elevado da organização social, no trabalho cooperativo e no esforço eficaz para tanto.
  • Eu acredito que eu sou o administrador do germoplasma que eu carrego e que este foi passado a mim através de milhares de gerações antes de mim, e que eu não posso trair essa confiança, se eu assim agir, como para prejudica-lo, com suas excelentes possibilidades, ou, por motivos de conveniência pessoal, limitarei indevidamente a minha prole.
  • Eu acredito que, tendo feito a minha escolha em um casamento com cuidado, nós, o casal, devemos procurar ter de 4 a 6 crianças, a fim de que o nosso germoplasma cuidadosamente selecionado será reproduzido em grau adequado e que essa ação preferencial não deve ser inundado por outros menos cuidadosamente selecionados.
  • Eu acredito em uma seleção de imigrantes que não tendam a adulterar o nosso germoplasma nacional com traços socialmente inaptos.
  • Eu acredito na repressão de meus instintos quando a segui-los seria ferir a próxima geração.
No Escritório de Registros Eugênicos, dirigido por Charles Benedict Davenport, começaram a identificar as raças e as classes americanas consideradas geneticamente inaptas (com a desculpa de defender a “saúde e a pureza da raça branca”); após identificadas, essas classes e raças eram monitoradas e suas vidas e fertilidade passavam a ser controladas pelo Estado com o aval de renomados cientistas.
 
Edwin Black
Edwin Black
No livro Guerra Contra os Fracos de autoria de Edwin Black, o escritor, jornalista e colunista comenta esse assunto:
 
“…Quando uma pessoa era identificada como de certa classe, isso significava qual escola ela frequentaria, em que cemitério ela poderia ser enterrada e onde poderia morar. Era uma questão de vida e morte. As leis sobre o casamento estavam consolidadas em dezenas de Estados Norte-Americanos, essas leis estabeleciam que essas pessoas não poderiam casar fora de seu grupo: Negros não podiam casar com brancos, índios não podiam casar com negros (por exemplo). No Estado da Virginia se a pessoa casasse com a pessoa errada, ou seja casamento inter-racial, as autoridades os “descasavam”; o casamento era anulado…”.
 
Em 27 Estados Norte-Americanos as leis eugênicas foram aprovadas. O estado de Indiana foi o primeiro a legalizar a esterilização coercitiva. E essas ideias eram amplamente propagadas em folhetos, revistas, livros e em um meio de propaganda que era novidade à época: O Cinema.
 
A esterilização em massa obrigatória foi um fato nos EUA.
 
Segue Edwin Black em seu livro:
 
“…Eles fizeram isso, checando os ancestrais, visando as linhagens sanguíneas para a extinção. Isso é Eugenia. O esforço para criar uma raça mestra branca, loura e de olhos azuis; eliminando as outras linhagens de sangue; até ficarem apenas eles e as pessoas parecidas com eles. E o importante aqui é que essas pessoas pensavam estar salvando a humanidade. Essas pessoas pensavam ser liberais, reformadoras…”
 
A eugenia foi um movimento mundial. Na Suécia por exemplo um programa oficial do governo esterilizou a força 60.000 seres humanos (pacientes mentais e membros das minorias étnicas).
 
Na Alemanha é que a eugenia encontrou terreno fértil para ganhar proporções épicas.
 
Michael Burleigh
Dr Michael Burleigh
O Dr Michael Burleigh autor do livro O Terceiro Reich – Uma nova História, conta em um documentário da BBC:
 
“… Em primeiro lugar, tudo ligado aos Estados Unidos parecia moderno, progressista, científico e democrático; lógico, então devia ser bom. Os Estados Unidos eram o futuro, a força para o futuro. Em segundo lugar muitos eugenistas europeus incluindo os alemães, gostaram do tom adotado pelos eugenistas americanos que era muito radical e “quase sem bobagens”, os americanos não usavam eufemismos, diziam exatamente o que queriam dizer…” .
 
Grandes e ricas fundações americanas financiaram a eugeniaJohn D. Rockefellera alemã. O Instituto Kaiser Wilhelm de Antropologia, Hereditariedade Humana e Eugenia de Berlim nos anos 1930 recebia doações da Fundação Rockefeller dos Estados Unidos. John D. Rockefeller era um grande entusiasta e financiador do eugenismo, dentro e fora dos EUA.
Heinrich Himmler
Heinrich Himmler
O cientista mais destacado no Instituto foi Eugen Fischer que se tornou célebre por seus estudos na Namíbia como vimos anteriormente. Fisher foi autorizado pelos nazistas a esterilizar as pessoas “misturadas” racialmente na Alemanha; ao menos 400 dessas pessoas eram crianças; tudo com a supervisão da SS de Heinrich Himmler. Além disso, antes de 1939 eram esterilizados, doentes mentais ou deficientes físicos considerados inaptos. Mais tarde abandonaram o método de esterilização e partiram para algo mais radical: A Eutanásia Adulta; um eufemismo para assassinato em massa de “indesejáveis”. Foram os primeiros a morrer em câmaras de gás durante o período nazista. Não se tem números confiáveis destes assassinatos em massa, porém cerca de 70.000 pessoas é um número bem aceito por todos os pesquisadores.
 
Quando a SS partiu para o seu grande projeto que era aniquilar a população judia da Europa, sobretudo a população judia da Polônia, não tiveram qualquer problema de logística; eles já tinham prática desde a Namíbia, passando pela esterilização em massa de indesejáveis e doentes mentais. Tudo registrado, fotografado, mapeado e arquivado em seus institutos científicos da morte e como vimos, alguns com patrocínio norte-americano.
 
Os alemães gostavam de se referir a eugenia como “Higiene da Raça”; este conceito sobreviveu (e sobrevive até hoje) na Europa até muito recentemente com guerras civis e desmantelamentos de Estados inteiros em nome da limpeza étnica. (vide as guerras na antiga Iugoslávia, Tchecoslováquia, Bósnia-Herzegovina etc. Alguns de seu líderes ainda estão para ser julgados em tribunais internacionais de direitos humanos.
 
Durante a Conferência de Wannsee onde os nazistas alemães discutiram a “Solução Final da Questão Judaica” cerca de metade dos conferencistas sentados a mesa tinham doutorado em eugenia ou “pureza da raça”. Para os eugenistas, nazistas e adeptos da “higiene da raça” o assunto era científico e profissional.
 
O que eu, como autor deste post não quero deixar passar, é que existe uma linha direta desde Francis Galton que cunhou o termo eugenia até o holocausto; sem esquecer de seus precursores como Robert Knox e Thomas Henry Huxley. Os alemães foram herdeiros do Darwinismo Social e do Racismo Científico. O Holocausto não foi uma aberração histórica, teve um passado, muitas vezes justificado pela chamada: ciência.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Conheça a História do Povo da Tasmânia

Um Povo levado a extinção…

taz
Taz
 
Tudo que você conhece sobre a Tasmânia são os desenhos de Looney Tunes e o desenho animado do Taz?

A Tasmânia:

Hoje,  a Tasmânia é uma ilha e um estado australiano com uma área total de 65.022 km². Fica a 240 km da costa sudeste da Austrália “continental”. Na última era glacial, muito provavelmente a  Tasmânia esteve ligada a “ilha” principal da Austrália (entre 10.000 e 18.000 atrás).

O primeiro europeu a avistar a Tasmânia foi
AbelTasman
Abel Tasman

o explorador holandês Abel Tasman (daí o nome Tasmânia) em 24 de novembro de 1642. Abel chamou a ilha de Anthoonij van Diemenslandt em homenagem ao Governador-Geral das Índias Orientais Holandesas.

A ilha ficou conhecida como Terra de Van Diemen (Van Diemens Land) pelos britânicos. O explorador francês Marc-
Marc-Joseph Marion du Fresne
Fresne
James cook
James Cook
Joseph Marion du Fresne também avistou a ilha em 1772 (pouco antes de morrer) e o famoso Capitão James Cook em 1777. Diversos outros navegadores europeus avistaram ou aportaram na ilha.
 
Uma pequena pausa para uma explicação:

Até hoje não se chegou  a um consenso se a Austrália é um continente ou uma ilha. Existe um certo “acordo” em considerar que tudo que é maior que a Austrália é um continente e tudo que é menor que a Austrália é uma ilha; mesmo tendo a maioria dos tratados como sendo a Austrália um continente, o próprio Governo Australiano (através do Departamento de Negócios Estrangeiros e Comércio) considera oficialmente a Austrália como sendo a maior ilha do mundo e o menor continente do planeta.

Continuando com a Tasmânia…

Tasmania
A Ilha da Tasmânia
A primeira colônia da Tasmânia foi iniciada pelos britânicos em Risdon Cove na margem oriental do estuário do Derwent em 1803 por um pequeno grupo enviado de Sydney sob o comando do tenente John Bowen.
John Bowen
John Bowen
Em 1803, a Inglaterra começou a colonizar a Tasmânia e encontraram cerca de 5.000 aborígenes Tasmanianos chamados Palawa e que viviam completamente isolados do mundo a mais de 10.000 anos. Ridiculamente os invasores britânicos analisaram e julgaram esses habitantes pela ótica de sua “civilização” “cristã” europeia (eu coloco a palavra cristã entre aspas, pois não houve nada de cristão em suas atitudes).
O Professor Henry Reynolds da Universidade da Tasmânia deu a seguinte declaração para um documentário da BBC:
Henry Reynolds
Henry Reynolds
“… Logo houve expressões de nojo e choque pelo modo como os Tasmanianos viviam. Para os europeus pareciam que os Tasmanianos não tinham cultura, não tinham religião, não tinham um Deus. Assim eles os viam como gente que tinham ficado para trás na história e também os ligaram a uma ideia muito popular no século XVIII: “A Grande Cadeia do Ser”; em que várias raças do gênero humano foram arranjados em ordem hierárquica e na qual os Tasmanianos eram singularmente selvagens e primitivos, portanto podiam ser tratados quase como animais…”
 
Também em 1803, os britânicos construíram sua primeira colônia em Risdon Cove que está localizado na margem leste do Rio Derwent, a cerca de 7 km ao norte de Hobart a atual capital da Tasmânia; este pequeno grupo foi enviado de Sydney na “Austrália Continental”. Esta colônia foi mais tarde abandonada.
 
Em 1804 uma segunda colônia foi estabelecida pelo capitão David Collins a 5 km ao sul de Risdon Cove em Sullivan's Cove na margem oeste do Rio Derwent. Esta última colônia ficou conhecida como Hobart Town ou Hobarton, mais tarde encurtado para Hobart  e mais tarde ainda se tornou a capital da Tasmânia.

A questão é que as duas colônias foram construídas onde por milênios eram área de caça dos Tasmanianos. A caça era necessária para os invasores ingleses assim como para os aborígenes e se fazia necessário enxotar, maltratar, e se  necessário matar os Palawa.

Em um lugar longe de tudo e de todos não fica difícil imaginar o que ocorreu: Os ingleses foram enxotando os Tasmanianos  cada vez mais para longe; até que em meados de 1820 os habitantes nativos começaram a reagir e assim como eram mortos, passaram a matar os invasores de suas terras.

Bain Attwood
Bain Attwood
O Professor Bain Attwood da Universidade Monash na Austrália deu o seguinte depoimento para o documentário que no Brasil tem o título de: Racismo; uma história. (Impactos Fatais) da BBC de Londres:

“… A partir de 1820 grandes quantidades de terras são tomadas de seus donos e ocorreu uma luta enorme entre o povo aborígene e os brancos. É claro que é muito difícil documentar muito da violência dos colonizadores porque eles sabiam que era contra a lei matar o povo nativo. A eles foi dito que os aborígenes eram súditos britânicos, mas com certeza eles revelam em seus diários e em suas anotações o desejo de eliminar esse povo…”

Esses acontecimentos ficaram conhecidos à época como “Guerra Negra”. Não teve testemunhas, a Tasmânia era um lugar muito ermo, mesmo assim acabou chamando a atenção das autoridades inglesas pois os invasores chamados de “colonizadores” com a desculpa de ter a missão de desenvolver a agricultura e outras atividades, matavam todos os Tasmanianos que viam pela frente; grupos familiares inteiros foram mortos sem dó nem piedade. Por mais que os nativos revidassem desesperadamente para defender suas famílias, suas terras e suas vidas, eles não eram guerreiros, eram 5.000 indivíduos que embora separados em comunidades familiares não guerreavam entre si; não tinham a menor condição de lutar contra europeus banhados de sangue até o último fio de cabelo. Além do mais os primeiros colonos eram, em sua grande maioria, presidiários e guardas prisionais com formação militar; os aborígenes da Tasmânia eram como pintinhos lutando contra raposas espertalhonas.

O Professor Henry Reynolds continuou seu depoimento para a BBC:

“… Em tais circunstâncias, era muito fácil nos dois lados, sem dúvida, ver o outro lado como sendo totalmente sub-humano. Não tenho dúvida de que os aborígenes achavam que os europeus não tinham moralidade alguma ou comedimento algum; igualmente os europeus passaram a ver aquela gente como animais e selvagens. Em uma sociedade racialmente tão dividida o conflito deriva facilmente para um extremo sentimento de ódio…”

Durante a década de 1820, milhares de aborígenes morreram, enquanto chegavam mais e mais colonos. Ao final da década, havia o risco real de aniquilação de toda a população nativa.

George Arthur
Governador George Arthur
Em 1824, chegou a Tasmânia a “esperança” dos  Tasmanianos: o Governador George Arthur (Major-General Sir George Arthur). Ele definiu duas estratégias para acabar com o conflito entre colonos e aborígenes. Por um lado, premiou a captura de aborígenes, tanto adultos como crianças, e por outro lado tentou estabelecer contatos com os aborígenes a fim de convence-los a adaptarem-se à vida em acampamentos concebidos para eles.
George Arthur não era inexperiente; teve uma carreira “brilhante”, antes e depois da Tasmânia; ele foi vice-governador de Honduras (entre 1814 e 1822), mais tarde serviu na Província de Upper (Canadá de 1838 a 1841). Ele também serviu como governador de Bombaim (Índia de 1842 a 1846); serviu nas guerras Napoleônicas em várias campanhas e foi ferido gravemente em combate.
Arthur declarou lei marcial, na ilha.
Após os ataques de colonos aos aborígenes, Arthur organizou a “Black Line” um  fiasco, que se destinava a conduzir os aborígines a locais onde poderiam ser controlados.

Continuando com as declarações do Professor Henry Reynolds:

“… O governador da Tasmânia é cristão protestante,*  conhece Wilberforce** e está ciente que o seu futuro e sua reputação dependem acima de tudo de como ele irá lidar com esse problema, no fim dos anos 1820 ele já tinha sido avisado pelo governo britânico que o rápido declínio do número de aborígenes, sugeria que eles poderiam acabar sendo exterminados e que se isso acontecesse seria uma mancha indelével na reputação do império britânico. Além disso por implicação seria desastroso para a sua carreira…”

* Wilberforce é uma localidade na Austrália; o professor  Henry Reynolds quer dizer com isso que George Arthur não desconhecia totalmente a região da Austrália.

** A tradução para o português das declarações de Henry Reynolds no documentário da BBC diz textualmente que o Governador George Arthur era evangélico. Não me foi possível ter acesso a gravação original em inglês, no entanto creio que a tradução tenha sido equivocada. Não consta que Arthur tenha sido pentecostalista; é quase certo que era cristão protestante. No Brasil essa confusão é muito comum. O Brasil é o único país do mundo em que se confunde Protestantes históricos como por exemplo: Presbiterianos, Calvinistas, Batistas e tantas outras denominações (igrejas se assim preferir) com “evangélicos”  no sentido de pentecostalistas (Tele-Evangelistas, IURD etc.. Que são seitas auto-intituladas cristãs evangélicas).

Então, George Arthur partiu para tentar “salvar” os Palawa; e para isso fixou cartazes pictóricos nas árvores das terras aborígenes (veja a gravura) com verdadeiras fantasias utópicas que diziam mais ou menos o seguinte:
 
cartaz tasmaniano
Cartazes Fixados em Árvores para Atrair os Aborígenes
Os cartazes mostravam imagens falando da justiça britânica, prometiam igualdade perante a lei, mostravam que se um homem branco matasse um aborígene, seria enforcado, mas se um aborígene matasse um “colonizador” branco esse aborígene seria enforcado. Os cartazes também propagavam mentirosamente que os ingleses queriam a integração entre os nativos e os britânicos.
Nada funcionou, nada deu certo; e na prática continuou a matança dos dois lados, sempre com os Tasmanianos levando a pior.

Após anos sendo mortos pelos homens brancos os Palawa aprenderam a se esconder nas matas da Tasmânia.

Dos 5.000 aborígenes tasmanianos que estava na ilha a mais de 10.000 anos, sobraram 300.

Determinado a tomar definitivamente as terras dos aborígenes, o Governador George Arthur com a desculpa de salvar os sobreviventes do povo Palawa, contratou os serviços de um missionário protestante; George Augustus Robinson.

George Augustus Robinson:

George Robinson
George Augustus Robinson
Era um construtor, filho de construtor e resolveu emigrar para a Tasmânia. Ocorre que ele também era um cristão fervoroso e dada a carência de missionários dispostos a viver naquelas paragens, acabou sendo investido deste título; ele não tinha nenhuma experiência como missionário, mas acabou conquistando a simpatia de um grupo de aborígenes e os converteu ao cristianismo.

Com essas precárias credenciais Robinson foi contratado pelo Governador George Arthur para ir as matas contatar os aborígenes sobreviventes.

Sobre este assunto, o professor Henry Reynolds comenta para a BBC:

“…Robinson recebeu a mensagem de que o governo queria chegar a algum tipo de acordo, uma negociação, um tratado de paz. Robinson e seus ajudantes, convenceram os nativos que eles deveriam ir temporariamente para uma (outra) ilha onde seriam cuidados e alimentados e que depois voltariam para a sua ilha natal…”

E assim foi feito; Robinson convenceu os 300 aborígenes sobreviventes a sair da Ilha da Tasmânia onde seus antepassados estiveram por mais de 10.000 anos e foram viver em um assentamento chamado de Wybalenna que significa Casa de Homem Negro na Ilha Flinders.

A Ilha Flinders:

É uma ilha no Estreito de Bass . Fica a 20 quilômetros de Cabo Portland , na ponta nordeste da Tasmânia e é a maior ilha do Grupo Furneaux. A área total da ilha é de 1.333 km ², bem diferente dos 65.022 km² da Ilha da Tasmânia.

Robinson largou seu trabalho de construtor e foi viver com os aborígenes no assentamento da Ilha Flinders. Ganhou o título oficial do governo inglês de “Protetor Chefe dos Aborígenes”.

Foram construídos no assentamento Wybalenna: Casas, terras para cultivar e uma capela. Robinson chamava o assentamento de “Ponto Civilização”. Um artista foi contratado para fazer retratos dos últimos 300 tasmanianos.
 
djini 2
Djini tinha sido capturada por Robinson logo após a quase aniquilação de seu povo pelos colonizadores.

 
ingadj 2
Iunradji tinha sido chefe, até a sua comunidade ser eliminada por um vírus trazido pelos europeus.

 
manaularquena
O líder local Manalarquina foi atraído para a Ilha Flinders com a promessa de que os presos que tinham atacado seu povo fossem levados a justiça. A maioria dos “colonizadores” eram presidiários.

 
Triganini
Truganini viu seu marido ser assassinado diante dela.
Todos os trezentos sobreviventes haviam visto sua cultura quase extinta e o pouco que sobrou foi sendo lentamente sendo substituído por “valores cristãos” enfiados goela abaixo por George Augustus Robinson.
 
Sobre isso o Professor Reynolds diz:
 
“… Ele acredita que para ser um cristão bem sucedido era preciso se assentar, morar em uma vila. Ele quer mandar as crianças para a escola, quer ensinar a elas a arar, semear e tornar essas crianças agricultoras…”
 
Desta maneira, estando ali, longe de sua ilha natal, forçados a ser o que não eram, os aborígenes começaram a morrer um após o outro; muitos por doenças contraídas dos europeus; o médico dizia que eles estavam com uma doença que ele chamava de “espíritos deprimidos”.
 
Não nasceram mais crianças aborígenes no assentamento da Ilha Flinders, eles foram um a um se desvanecendo como um espírito coletivo que se evapora, desaparece.
 
Alguns se entregaram a chamada civilização cristã de Robinson, vestindo-se com roupas europeias e frequentando os cultos na capela local; outros até serviram como empregados domésticos.
 
Truganini e os ltimos 4 aborigines tasmanianos
Últimos quatro aborígenes tasmanianos, em 1860. Truganini, a última a sobreviver, está sentada à direita.
 
Em meados de 1840, dos 300 aborígenes levados por Robinson para a Ilha Flinders, 260 morreram; em geral, ainda jovens. Os outros 40 foram lentamente desparecendo desta vida. A última a morrer foi Truganini, que morreu em 1876. Foi a última Tasmaniana de sangue puro.
É quase um consenso de que George Augustus Robinson não era um homem de mau caráter. Ele era frequentemente visto chorando junto aos tasmanianos, muitas vezes sem saber o que fazer. Era uma pessoa completamente despreparada para executar o que lhe foi proposto ainda que essa proposta fosse mentirosa por parte do governador e de outras autoridades. Ao final, só restou a ele criar um mapa onde era marcado os sepulcros dos Palawa. Certa vez teria dito:

- Bem, ao menos morreram como cristãos, em paz e não em meio a floresta assassinados.

Não foi o cristianismo que aniquilou o Povo Tasmaniano, o cristianismo foi usado como desculpa por homens de coração de pedra para aniquilar o Povo Tasmaniano.

Hoje a Tasmânia é um bom lugar para fazer turismo, é um bom lugar para viver; graças as vidas de milhares que foram obrigados a ceder suas terras, sua maneira de viver e suas vidas.
 
Talvez você se lembre disso na próxima vez que assistir o desenho do Taz.

treganini
Truganini, em 1876. A última Tasmaniana.
 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O Primeiro Genocídio Alemão.

Hererós, as primeiras vítimas do racismo alemão.

Moas Herers abertura
Moças Hererós - Dias Atuais
Quando os alemães nazistas de Adolf Hitler começaram a matar em escala industrial judeus, ciganos, homossexuais, comunistas e todos os que os incomodavam, não eram novatos no assunto já tinham até prática. Eles já haviam feito antes, fora do olhar da Europa, longe de jornalistas, sem uma guerra formal declarada.

Quando Adolf Hitler era um adolescente, o Império Alemão tomou posse da Namíbia.

A Namíbia:

Mapa da Namibia
Namíbia - África
A hoje República da Namíbia é um país do sudoeste  africano limitado a norte por Angola e pela Zâmbia, a leste e a sul pelo Botswana, a sul pela África do Sul e a oeste pelo Oceano Atlântico.
 
Os primeiros a desembarcar e explorar a costa da Namíbia foram os navegadores portugueses Diogo Cão em 1485 e Bartolomeu Dias em 1486, mas a região não despertou interesse algum, nem ao menos fincaram bandeira ou foi reclamada pela coroa portuguesa.
Até recentemente pouco ou quase nada se sabia sobre a história da Namíbia de 1485 até 1885 até que a Conferência de Berlim, concedeu a Alemanha o direito de administrar o território do Sudoeste Africano; salvo um ou outro livro sobre história da África ou tratados de geografia. É fácil de explicar: A Namíbia é basicamente um deserto desolado.
Povo Herer, foto antiga
Povo Hereró
 
Até a chegada dos alemães em 1885 a região era habitada por dois povos: os Hererós e os Namaquas (também chamados de Nama). A Namíbia é basicamente um deserto, com o deserto do Namibe ocupando a maior parte de seu território (junto a costa), e o deserto do Kalahari no interior. Seus habitantes eram em geral pastores de gado.

Um Pouco de História:

Entre 1880 e 1914 ocorreu o momento histórico conhecido como a Partilha da África, também conhecida como a Corrida a África ou ainda Disputa pela África, que consistiu em reivindicações por parte de alguns países o direito de invadir e anexar regiões da África durante o período do neoimperialismo; envolveu principalmente: França e Inglaterra, embora também a Itália, Bélgica, Alemanha, Portugal, Espanha e, em menor proporção Estados Unidos, (o EUA, participou da fundação da Libéria). Para tentar minimizar qualquer eventual hostilidade entre esses países foi proposta por Portugal a Conferência de Berlim que acabou sendo  realizada entre 19 de Novembro de 1884 e 26 de fevereiro de 1885 nesta conferência ficou acertada a partilha da África entre as novas potências coloniais. Essa vergonhosa partilha que nunca deveria ter existido, é uma nódoa na história de todos os países participantes e foi executada de forma abjeta e resultou numa divisão que não respeitou, nem a história, nem as relações étnicas e mesmo familiares dos povos do continente africano. Haviam tribos isoladas é verdade e terras praticamente desabitadas; porém também haviam nações inteiras, étnicas, culturais e organizacionais, eram nações inclusive com demarcações geográficas como a nação do Congo por exemplo.
 
Assim nessa infame conferência ficou decidido em agosto de 1884 que a Alemanha seria a “dona” da Namíbia sob a forma de “protetorado”.
 
Desde o início houve resistência por parte da população local, os chamados Khoikhoi (devido a religião que praticavam) à ocupação alemã. Pegaram em armas para combater os invasores e uma paz tênue foi declarada em 1894.
Povo namaqua
Povo Namaqua
 
Os alemães iam  para lá para começar uma vida nova, tornarem-se fazendeiros etc. Porém as terras férteis eram raras e já ocupadas pela população nativa local, os Hererós e os Namaquas, afinal eles a conheciam, pois eram em sua maioria pastores e sabiam onde levar seu gado para pastar e sendo esses locais raros dado a característica desértica do país os alemães tinham que dar um jeito de expulsar os hererós e namaquas.
Theodor Gotthilf Leutwein
Theodor Gotthilf Leutwei
Governador da Namíbia
 
Em 1894, Theodor Gotthilf Leutwei tornou-se governador da Namíbia, que passou por um período rápido de desenvolvimento, e no mesmo ano a Alemanha enviou a Schutztruppe, ou as tropas coloniais imperiais, para pacificar a região; isso em pleno período de paz ainda que frágil.
 
De 1894 a 1904, os alemães foram encorajados a se estabelecer em terras tomadas dos nativos, o que obviamente causou um grande descontentamento. A terra e o gado que foram essenciais para os estilos de vida Hererós e Namaquas foram roubados pelos alemães. Os nativos foram usados como escravos e suas terras frequentemente eram “apreendidas” e entregues a colonos.
Schutztruppe
Schutztruppe Alemã

Uma pequena pausa para um esclarecimento importante:

Muitas vezes é usado como desculpa para as atrocidades cometidas pelos alemães, a grande quantidade de diamantes e outros minerais encontrados na Namíbia, o que é inteiramente mentira pois esses minerais só foram descobertos no local em 1908 e a maldade alemã começou como estamos vendo aqui mais de dez anos antes.
 
Entre 1894 e 1902 os hererós cederam mais de um quarto de suas terras para os alemães.
 
Durante os anos de invasão, os hererós se deixaram seduzir por produtos industrializados vendidos por comerciantes alemães; totalmente despreparados no trato com dinheiro, os hererós pediam empréstimos aos comerciantes, para gastar o dinheiro nos mesmos comércios onde pediam emprestado; é óbvio que não conseguiam pagar.
 
Os comerciantes começaram a cobrar os empréstimos, como não havia dinheiro, os comerciantes começaram a apreender o gado dos hererós, ou quaisquer objetos de valor que eles pudessem tomar, a fim de “amortizar” os empréstimos.
 
Para “resolver” o problema, o governador Leutwein decretou em 1902 (o ano carece de confirmação), que todas as dívidas não pagas seriam anuladas no ano seguinte (1903, carece de confirmação) o que na prática, se tornou uma manobra para que os comerciantes cobrassem as dívidas por conta própria, não respeitando o perdão da dívida. Os hererós iam de boa fé reclamar com os funcionários públicos do governo alemão, quando descobriram que esses funcionários eram cúmplices do esquema.
hendrik witbooi
Hendrik Witbooi
 
Em 1903, algumas das tribos Namaquas revoltaram-se, liderados por Hendrik Witbooi, onde cerca de 60 alemães morreram.
Em janeiro de 1904 os Hererós se juntaram aos Namaquas nas revoltas.
 
Começou a discussão sobre a possibilidade de criar reservas e forçar os Hererós a viverem nelas. Outros alemães eram a favor de simplesmente usar os hererós como escravos em suas fazendas e ainda outros eram a favor do extermínio de todo o povo hereró e namaqua.
 
Um ataque de uma grande tribo hereró foi feito contra os alemães; os hererós perderam a “batalha”; quem sobreviveu foi obrigado a entregar suas armas.
 
Os alemães ficaram tão confiantes com a vitória, que acreditaram que não haveriam mais ataques por parte dos hererós, e o governador Leutwein retirou a metade das tropas alemães da colônia.
Samuel Maharero
Chefe Samuel Maharero
 
No entanto em 1904 os hererós se revoltaram mais uma vez, liderados pelo Chefe Samuel Maharero, 120 alemães foram mortos, incluindo mulheres e crianças, e suas fazendas foram queimadas. Os rebeldes cercaram a localidade de Okahandja e fecharam os caminhos até Windhoek, a capital da colônia alemã.
 
Em  3 de maio de 1904 o Governador Leutwein foi forçado a pedir reforços a capital alemã, Berlim. Assim o Tenente-General Lothar von Trotha foi nomeado Comandante em Chefe da África do Sudoeste Alemão (Namíbia), chegando em 11 de junho com sua força de 14.000 soldados profissionais.
 
Começou uma briga dentro do poder alemão na colônia: O Governador Leutwein que era civil, era subordinado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros Coloniais Alemão, e relatou ao chanceler germânico Bernhard von Bülow, que queria derrotar os rebeldes Hererós mais aguerridos e negociar uma rendição com o restante deles para alcançar uma solução política.
 
Trotha que era militar, por outro lado, relatou ao Estado-Maior Alemão, que só era subordinado ao Kaiser Guilherme II e que queria esmagar toda e qualquer resistência nativa.
O General Lothar von Trotha venceu a contenda e partiu para a batalha contra os hererós.
kaiser wilhelm
Kaiser Guilherme II
 
Em  em 11 e 12 de agosto de 1904 aconteceu a Batalha de Waterberg onde Trotha e suas tropas derrotaram entre 3.000 e 5.000 hererós. Os hererós mesmo derrotados continuaram eventualmente a atacar pontos isolados de instalações alemães e algumas fazendas. Mesmo lutando bravamente os hererós não tinham mais condições de manter uma luta com os soldados profissionais alemães; e os sobreviventes da Batalha Waterberg retiraram-se para Bechuanalândia que era território dominado pelos ingleses (atual Botswana). Os ingleses acolheram os sobreviventes hererós com a única condição de não continuarem as hostilidades em território dominado por eles.
 
Outros 24.000 hererós (número aproximado) conseguiram fugir para o deserto do Kalahari, na esperança de alcançar o protetorado britânico. Quase todos morreram de sede. Patrulhas alemães encontraram mais tarde, esqueletos dentro de buracos de até 50 metros de profundidade; foi uma tentativa desesperada dos hererós encontrarem água.
 
Samuel Maherero e 1.000 de seus homens conseguiram cruzar o Deserto do Kalahari até a Bechuanalândia.
Em 2 de outubro, o Tenente-General Lothar von Trotha lançou um aviso aos hererós:
 
“…Eu, o grande general das tropas alemãs, envio esta carta ao povo Hereró … Todos os hererós devem deixar esta terra …Qualquer Hereró encontrado dentro das fronteiras alemãs, com ou sem uma arma, com ou sem gado, será morto. Vou deixar de receber todas as mulheres ou crianças, vou expulsa-los (as mulheres e crianças) ou  serão eles mortos. Esta é a minha decisão para o povo Hereró…”
 
Sem conseguir uma vitória conclusiva através da batalha, o General Trotha ordenou que os homens Hererós capturados fossem executados, as mulheres e as crianças seriam empurrados para o deserto.
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Bernhard von  Bülow
 
O governador civil Theodor Leutwein não concordando com as atitudes de Trotha queixou-se ao Chanceler alemão Bernhard von  Bülow dizendo que as ações de Trotha iriam arruinar qualquer chance de um assentamento e que ele invadira a jurisdição civil colonial.
 
Sem ter autoridade sobre os militares, o chanceler só podia aconselhar o Kaiser Guilherme II e foi o que fez, disse ao Kaiser que:
“…as ações de Trotha eram contrárias ao princípio cristão e humanitário, economicamente devastador e prejudicial para a reputação internacional da Alemanha…"
 
Talvez esquecendo que estavam em pleno século XX as autoridades tanto coloniais (na Namíbia) quanto imperiais na Alemanha não tomaram conhecimento dos protestos de Leutwein e dos conselhos de Bülow. As atrocidades cometidas pelos alemães chegaram ao conhecimento mundial através de rádios e jornais escritos e é claro foram muito criticados pela comunidade internacional.
 
A Alemanha se defendeu com a seguinte declaração:
 
“…Os Hererós não podem ser protegidos pela Convenção de Genebra que define os direitos humanos, porque a Alemanha afirma que os Hererós não são humanos de verdade, mas subumanos…” (sic)
 
Em 8 de dezembro de 1904, depois de protestos internacionais e de uma batalha politica entre o governo civil, a casa imperial alemã e os militares, o Kaiser Guilherme II revogou o decreto de Trotha de 2 de outubro. Foi inútil; desde outubro os massacres já haviam começado.
 
Os prisioneiros já eram amontoados em campos de concentração e/ou dados como escravos às empresas alemãs na Namíbia. Muitos prisioneiros morreram de desnutrição e fadiga (excesso de trabalho).
herero2 escravizados
Hererós Escravizados
 
A revogação do decreto de Trotha pelo Kaiser impedia a execução sumária dos hererós, mas nada impedia que eles fossem feitos prisioneiros de guerra.
 
herers mortos
Enforcamentos sumários
 
Os Campos de Concentração:
 
Os sobreviventes hererós, a maioria mulheres e crianças, acabaram sendo postos em campos de concentração, como o em Shark Island. Foi o primeiro Campo de Extermínio do mundo.
 
Sharkisland_Camp
Acampamento de "Prisioneiros de Guerra"
Observe que ao menos um está acorrentado pelo pescoço
 
Nesses campos, os Hererós e os Namaquas  foram aprisionados e escravizados; milhares trabalharam até a morte. As mulheres foram estupradas, quem não morria era espancado (inclusive mulheres e crianças) pelos guardas alemães dos campos de concentração. Enforcamentos eram feitos seguidamente sem necessidade de nenhum motivo especial.
 
enforcamento
Os enforcamentos podiam acontecer sem motivo algum
 
Como podemos ver, a infâmia alemã começou muito antes de Adolf Hitler, o Partido Nazista ou o Nacional Socialismo Alemão (nesta época Hitler tinha algo como 15 anos de idade).
 
Herero morrendo
Povo Hereró em Campo de Extermínio Alemão
 
Existiram vários Campos de Concentração na Namíbia, mas o mais infame e cruel deles foi o chamado de Campo de Shark Island (Ilha do Tubarão).
 
Herero Concentration Camps 02
Estas são as "cabanas" no Campo de Extermínio da Ilha Shark
gewaldJanBart
Jan-Bart Gewald
 
Segundo o Dr. Jan-Bart Gewald, professor da Universidade de Leiden na Holanda afirma:
 
“… O Campo da Ilha Shark foi criado com o objetivo expresso de matar pessoas…”
 
 
“… Todo mundo sabia que aquelas pessoas iriam morrer; as pessoas sabiam, os oficiais alemães sabiam. Se eu fosse usar a linguagem do período nazista, então com certeza eu iria ver a Ilha Shark como um campo de extermínio…”
 
“… Os genocídios na Namíbia que ocorreram entre 1904 e 1909 (este ano carece de confirmação, encontrei outras fontes que dizem que os massacres terminaram em 1908 n.a), foram os precursores do que acontece mais tarde durante o período nazista, são os precursores, tem os mesmos “sintomas” no sentido que se pode ver a burocratização dos assassinatos em massa, e isso para mim é o ponto central. Não é matar por matar não, é uma combinação entre matança e burocracia…”
 
Jan-Bart Gewald também escreveu:
 
“…os alemães montaram acampamentos especiais para suas tropas, e muitas crianças nasceram de pais alemães e mães Hererós. Depois que a maioria dos homens hererós foram mortos, as mulheres sobreviventes foram forçadas a servir como prostitutas para os alemães. Trotha se opôs ao contato entre nativos e colonos, acreditando que a insurreição era "o início de uma luta racial" e temendo que os colonos seriam infectados por doenças de origem nativa…”
 
Larissa Frster
Larissa Förster
Larissa Förster, uma especialista na Namíbia, do Museu de Etnologia da Cidade de Colónia na Alemanha, explica:
 
"…Foi claramente um comando para eliminar as pessoas pertencentes a um grupo étnico específico e só porque eles eram parte deste grupo étnico…"
 
Neste Campo de Extermínio da Ilha Shark na Namíbia, cerca de 3.500 seres humanos foram exterminados pelos alemães com velocidade e eficiência própria dos alemães.
 
As autoridades alemãs civis ou militares deram um número a cada Hereró e detalhadamente registraram cada morte, incluindo mesmo o nome de cada pessoa morta nos seus relatórios seja nos campos de trabalhos forçados, seja nos campos de extermínio. Empresas alemãs alugavam hererós como escravos, e a morte dos trabalhadores eram autorizadas pelas autoridades coloniais, e eram notificadas às autoridades alemãs na Europa. Trabalhos forçados, doenças, e a desnutrição mataram um número entre de 50 a 80% da população Hereró até meados de 1908, quando os campos foram fechados.
 
Relatório oficial sobre os campos de 1908, informou que 45,2% de todos os prisioneiros mantidos em cinco campos morreram. Os prisioneiros eram confinados por cercas de arame farpado e as pessoas eram geralmente amontoadas em pequenas áreas. O campo de Windhoek tinha cerca de 5.000 “prisioneiros de guerra” em 1906. As rações eram ínfimas, consistindo de uma mão de arroz cru, um pouco de sal e água. O arroz era desconhecido pelos Hererós e Namaquas e sua inclusão na dieta do campo pode ter contribuído para a elevada taxa de mortalidade.
 
As doenças nos campos de concentração e extermínio eram mais um motivo de mortandade, assim como uma alta concentração de pessoas em uma pequena área contribuíram para a propagação de doenças como febre tifoide, que em seguida se espalhou rapidamente. Não havia atendimento médico, os alojamentos eram  insalubres, os prisioneiros vestiam trapos.

Os Sjamboks:

sjambok
Sjambok
 
Sjambok significa "vara", em Ndebeleo (idioma Bantu africano) é uma arma feita de madeira rígida e resistente, com cerca de 50 centímetros e com uma alça de couro em uma das extremidades. O sjambok mais tarde se tornou o símbolo da Polícia do Apartheid na África do Sul, que caçava os não-brancos. Antigamente (creio que não é mais usado em nenhum lugar do mudo) era usado um instrumento similar para chicotear os cavalos.
 
Esta coisa abjeta, que só covardes e insanos poderiam pensar em usar, era usado em espancamentos e abusos (sexuais) e eram rotina na vida nos campos de extermínio na Namíbia.
 
NAMIBIA SLAVERY
Escravos Século XX
 
Em 28 de setembro de 1905 em matéria publicada no jornal Sul-Africano Cape Argus noticiou detalhadamente alguns abusos, com o título:
 
"No Sudoeste Africano Alemão: novas alegações surpreendentes: horrível crueldade"
Em uma entrevista com Percival Griffith, um sul-africano, que trabalhou como motorista (de transporte de tropas alemãs) no Campo de Lüderitz, relatou suas experiências:
 
"…Há centenas deles, a maioria mulheres e crianças e alguns idosos … quando caem são espancados pelos soldados que estão no comando, com toda a força, até que se levantem … Em uma ocasião eu vi uma mulher carregando uma criança de menos de um ano de idade pendurada em suas costas, e com um pesado saco de grãos na cabeça dela … ela caiu. "O cabo bateu nela com o sjambok por mais de quatro minutos e bateu no bebê também .. . a mulher lutou lentamente para erguer-se até que conseguiu levantar, e continuou carregando sua carga. Ela não emitiu um som o tempo todo, mas o bebê chorava muito…”
 
Fred Cornell, um inglês que mais tarde trabalharia na prospecção de diamantes e que também trabalhou no transporte de tropas alemães, estava em Lüderitz quando o campo de Shark Island estava sendo utilizado. Cornell escreveu sobre o acampamento:
 
"…frio - as noites são frequentemente muito frias lá - fome, sede, exposição a doenças e a loucura reivindicam dezenas de vítimas todos os dias, e vários de seus corpos eram todos os dias carregados até a praia atrás do campo, enterrados em alguns centímetros de areia na maré baixa, e quando a maré atingia os corpos, eles viravam comida para os tubarões…”
Na Wikipédia, existe um trecho que é uma miscelânea de dados, artigos e depoimentos, muito misturados e as vezes com pouco sentido, mas nem por isso inverídicos:
 
“…O campo de concentração de Shark Island, na cidade costeira de Lüderitz, foi o pior dos cinco campos da Namíbia. Lüderitz reside no sul da Namíbia, ladeado pelo deserto e oceano. No porto fica Shark Island, que então era ligada ao continente apenas por um pequeno istmo (ainda é N.A.). A ilha é agora, como era então, estéril e caracteriza-se por rocha sólida esculpida em formações surreais pelos rígidos ventos do oceano. O acampamento foi colocado no extremo da ilha relativamente pequena, onde os presos teriam sofrido exposição completa para os fortes ventos que varrem Lüderitz na maior parte do ano. Os primeiros presos a chegar foram, de acordo com um missionário chamado Kuhlman, 487 Hererós condenados a trabalhar na estrada de ferro entre Lüderitz e Kubub. Em outubro de 1905 Kuhlman relatou as condições desumanas e a elevada taxa de mortalidade entre os Hererós na ilha. Ao longo de 1906 a ilha tinha um fluxo constante de prisioneiros, com 1.790 presos Namaquas chegando em 9 de setembro sozinhos. No relatório anual de Lüderitz em 1906, um funcionário não identificado afirmou que "o Anjo da Morte" tinha vindo para Shark Island. O Comandante alemão Von Estorff escreveu em um relatório que cerca de 1.700 prisioneiros tinham morrido em Abril de 1907, 1203 deles Namaquas. Em dezembro de 1906, quatro meses após sua chegada, morreram 291 Namaquas (uma taxa de mais de nove pessoas por dia). Relatórios de missionários colocaram a taxa de mortalidade entre os 12 e 18 por dia, algo como 80% dos presos enviados para o campo de concentração de Shark Island nunca saíram da ilha…” (sic)
 
Em 1905 foi realizada uma contagem feita por alemães que revelou que 25.000 Hererós estavam vivos na África do Sudoeste Alemão.
 
Alguns hererós não tiveram nem mesmo a mínima dignidade após a morte; seus restos mortais viraram matéria prima para os estudos da “ciência racial” na Europa. Seus crânios e até mesmo as cabeças cortadas foram vendidos para museus europeus e usados para provar a inferioridade dos africanos. O aviltante comercio de crânios dos hererós foi tão comum que foi até motivo em cartões postais da época.
 
Shark Island - Death Camp - BBC
Cabeças de Hererós foram expostas em Museus Alemães
 
Depois do genocídio, os cientistas alemães continuaram a usar a Namíbia como laboratório de campo e os pouquíssimos sobreviventes como cobaias.
Eugen-Fischer
Eugen Fischer
 
Em 1908 um “cientista” eugênico chamado Eugen Fischer, (a palavra eugenia nada tem a ver com o nome Eugenio ou Eugen) viajou para a cidade de Rehoboth na Namíbia. Fischer e um punhado de assistentes passaram meses fotografando, medindo e examinando os habitantes de Rehoboth. Todas as pesquisas de Eugen Fischer estão arquivadas em uma repartição pública na Namíbia até hoje: Fotos, medidas de rostos e crânios e ainda páginas e mais páginas de estudos racistas querendo provar a inferioridade do povo negro africano e que se miscigenando o homem branco com o povo negro africano o gene africano negro irá prevalecer e o resultado será, por mais branco que seja um ser humano inferior.

Após esses estudos, a reputação de Eugen Fischer foi as alturas e o país que mais gostou, adotou e financiou muitas de suas ideias e teorias foi os Estados Unidos.

Em 1985 as Nações Unidas através de um relatório chamado Relatório Whitaker admitiu que cerca de 65.000 Hererós (80% da população Hereró total) e 10.000 Namaquas (50% da população total Namaqua) foram mortos entre 1904 e 1907.
 
Em 1998, o então presidente alemão Roman Herzog visitou a Namíbia e se encontrou com líderes Hererós. O Chefe Munjuku Nguvauva exigiu um pedido público de desculpas e uma indenização pelos crimes ocorridos no início do século. Herzog lamentou, só isso; nem chegou perto de um pedido de desculpas formal. Ele também comentou à época que indenizações, estavam fora de questão.
 
Em 2001, os hererós entraram com um processo nos Estados Unidos exigindo indenizações do governo alemão e do Deutsche Bank, que financiou o governo alemão e as empresas na Namíbia no início do século passado.
 
Em 16 de agosto de 2004, no aniversário de 100 anos do início do genocídio, a então ministra do desenvolvimento da Alemanha Heidemarie Wieczorek-Zeul, pediu desculpas oficialmente pela primeira vez e manifestou pesar sobre o genocídio cometido pelos alemães. E declarou:
 
"Nós, alemães, aceitamos a nossa responsabilidade moral e histórica e a culpa pelos atos realizados pelos alemães na época." (sic)
 
Ela também admitiu que os massacres foram “…equivalentes a um genocídio…”, mas não falou sobre os temas: campos de concentração e escravidão, mesmo ambos tendo sido muito bem documentados pelos próprios alemães. Além disso, ela excluiu o pagamento de uma compensação especial.
 
Em outubro de 2007 os descendentes do General Lothar von Trotha e da família von Trotha viajaram para Omaruru na Namíbia a convite dos chefes Hererós e se desculparam publicamente pelos atos de seus antepassados. Wolf-Thilo von Trotha declarou publicamente:
 
"…Nós, da família von Trotha, estamos profundamente envergonhados dos terríveis acontecimentos que tiveram lugar há 100 anos. Os direitos humanos foram grosseiramente abusados naquela época… " (sic)
 
Em agosto de 2008, após a exibição na Europa de um documentário da TV Alemã que dizia que seus pesquisadores haviam encontrado mais de 40 crânios em duas universidades alemãs, entre elas, provavelmente, o crânio de um chefe Namaqua falecido em Shark Island, perto de Lüderitz; o ex-embaixador da Namíbia para a Alemanha, Peter Katjavivi exigiu que os crânios de prisioneiros hererós e namaquas das revoltas de 1904 a 1908, que foram levados para a Alemanha para a “investigação científica” e "provar" a superioridade dos brancos europeus sobre os africanos, fossem devolvidos à Namíbia.
 
esqueletos de herers
Ossadas dos Hererós reveladas pela ação dos ventos na Ilha Shark
 
Hoje, a Ilha Shark é um acampamento para turistas. Os hererós que morreram congelados ou de sede neste local quase foram apagados da lembrança. Por uma questão climática qualquer, ventos sopraram para longe as areias que cobriam uma quantidade enorme de ossadas, revelando assim o local de suas mortes horrendas. Isso, reascendeu a questão dos hererós. É como se os espíritos destes heróis Hererós não descansassem, e através de seus ossos, ainda clamassem por dignidade.