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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Anatomia de um incêndio - Terceira Parte

Esta é a terceira parte de Anatomia de um Incêndio.

Então, como eu ia dizendo na segunda parte de Anatomia de um Incêndio, eu perguntei ao sargento do Corpo de Bombeiros que estava posicionado ao meu lado:

- Já sabem qual a causa do incêndio?
Ele respondeu:

O sr. ou a sua esposa são "espiritualistas"?
Eu respondi:

- Minha esposa é.

- Parece que o fogo começou em um altar no último andar.

- Putz! (não foi bem isso que eu disse)

Eu continuei:

- E agora?

- O Tenente está lá na casa, e quando ele descer ele vai orientar o sr.
Lembrei que durante todo esse tempo desde que eu cheguei ao local do incêndio eu não havia derramado uma lágrima.

Nisso um outro Bombeiro me perguntou:

- O sr. está bem? Está se sentindo bem?

Eu respondi:

- Bom amigo, minha casa está pegando fogo, como o sr. acha que eu estou me sentindo?
- O sr. tem o direito a uma ambulância e a atendimento médico nestes casos.
- Estou bem. Respondi.
Os escombros pararam de cair, o fogo quase não era visível, só restava muita fumaça.

Mais alguns momentos e desceu o Tenente do Corpo de Bombeiros.
Um dos soldados nos apresentou, ele perguntou:
- O sr. fuma?

Pensei de imediato que a pergunta tinha algo a ver com o incêndio, até que ele puxou um cigarro do bolso do uniforme. Então respondi:
- Fumo.
- Então vamos sentar alí (na calçada da alameda)e fumar um cigarro.
Sentamos e ele começou:
- Sua casa não está de todo perdida; aliás sobrou muita coisa, nem, será necessário interditar a casa.
E o Tenente continuou:
- O sr. está se sentindo bem?
- Sim.
- Gostaria de subir e ver a situação?
- Sim, eu gostaria.
- Vou providenciar um capacete para o sr.
- Ok.
Capacete do Corpo de Bombeiros na Cabeça e lá fomos nós subindo a rampa de acesso a garagem.

CONTINUA...

Anatomia de um incêndio - Quarta Parte

Esta é a quarta parte do post Anatomia de um Incêndio.
Então, como eu ia dizendo no final da terceira parte de Anatomia de um Incêndio, coloquei o capacete do Corpo de Bombeiros e junto com o Tenente, iniciei a subida da rampa que leva a garagem da casa, a garagem nada sofreu, começamos então a subida da escada a direita que dá acesso a casa; logo percebi os primeiros sinais da destruição causada pelo incêndio, nos degraus da escada e no jardim do lado direito de quem sobe, (o lado esquerdo dá para o telhado da garagem), comecei a ver livros parcialmente queimados, cadernos manuscritos (provavelmente da nossa filha mais nova) e alguns papéis ao mesmo tempo queimados e molhados pela água do Corpo de Bombeiros.
E assim fui seguindo, logo tivemos que nos desviar de caibros ainda em brasa; telhas, muitas telhas espatifadas no chão. Viramos a esquerda para entrar pelo portão de madeira que dá acesso a entrada principal da casa (sala) antes uma mesinha de ferro com tampo de vidro, tombada junto com sua cadeira igualmente tombada; milagrosamente o tampo de vidro não se quebrou.
Passamos pelo portão, e na varanda panorâmica muitas telhas, caibros e tijolos quebrados, um pedaço de calha de bronze por onde escorria parte da água do telhado estava no chão a calha de bronze toda retorcida, subimos mais 3 degraus e o Tenente começou a falar:

- Tivemos que arrombar a porta principal para ter acesso a casa, mas acho que será possível consertar.

Entramos enfim na casa (na sala principal), tinha mais ou menos dois dedos de água no chão, muita fumaça e um cheiro indescritível de "incêndio" é um cheiro diferente de uma fogueira, ou de qualquer outra coisa que tenha queimado e que produza cheiro. Só quem é Bombeiro ou adentrou a um incêndio recém apagado pode descrever.
Subimos mais um degrau e viramos a esquerda para seguir para a escada que dá acesso ao segundo andar da casa; reparei que o interruptor automático das luzes da escada (tipo detector de presença) estava no lugar, mas parecia um chafariz, saindo água em um jato forte de uns 10 cm.
Ao subir a escada o cheiro aumentou, as paredes cheias de manchas de carvão algumas se podia notar terem o formato das mãos (com luvas) dos Bombeiros; descendo os degraus água, muita água.
Fomos direto ao sótão.
O sótão era onde ficava toda a instalação hidráulica da casa: Caixa d'água, todos os canos de entrada e saída de água para na caixa, o boiler, bomba hidráulica do boiler, no telhado do sotão as placas do aquecimento solar da água, antena parabólica, antena da TV por Assinatura, todas as principais caixas de passagens da rede elétrica ou seja fios e mais fios, cabos e mais cabos, cabos de antena, cabos de rede (computadores), cabos das câmaras de segurança etc...
Eu e minha esposa havíamos transformado uma boa parte do sótão em um pequeno apartamento, para nossas netas, portanto lá havia cama, armário de roupas, armário de brinquedos das netas, arquivos de documentos empresariais, armário de lembranças de família: fotos antigas das filhas fotos das netas quando eram bebês, muitos documentos que quase não se usam (certidões de nascimentos por exemplo), computador, uma bancada de serviços de confecção de bijouterias da minha esposa e o tal altar espiritual da minha esposa.
Tudo, absolutamente tudo foi destruído: das telhas a caixa d'água, do circulador de ar ao boiler; menos uma coisa, sim, houve uma coisa que nem ao menos chamuscou: O Altar Espiritual da minha mulher; queimou em baixo, queimou acima, queimou dos lados, mas o altar foi a única coisa intacta; ou seja o incêndio não começou ali!
Comentei ao Tenente:

- O Sargento lá em baixo insinuou que o incêndio teria começado no altar da minha esposa...

Ele respondeu:

- De forma alguma! Isso seria impossível! Visto que o altar está incólume.

Perguntei:

- Então como começou? O que causou o incêndio?

- Em minha opinião e da minha equipe, começou ali naquele nicho de fios retorcidos. (apontando para um canto).

Me lembrei que de fato ali haviam muitos fios passando, a maioria eu não fazia a menor idéia de para que serviam.

- A propósito (perguntou o Tenente) o sr. tem seguro?

- Não, não tenho.

- Então não haverá necessidade de laudo oficial.

- Eu não sei Tenente, nunca passei por isso antes.

- Nestes casos não há necessidade de perícia.

Havia de 1/2 metro a 1 metro e 1/2 de escombros. Caminhávamos (se é que se pode chamar isso de caminhada) com muita dificuldade, muita fumaça e alguns pequenos focos de fogo e com certeza muita brasa.

O Tenente falou que a laje ainda poderia ser recuperada com muita dificuldade, disse que haviam milhões de fissuras microscópicas que fariam a laje vazar água para o andar logo abaixo.

Descemos para o segundo andar da casa.

No caminho há uma porta que dá acesso a um alpendre (uma pequena varandinha toda de madeira). E o Tenente disse:

- Tivemos que arrombar esta porta também, para entrar com uma das mangueiras

Entramos no quarto que outrora pertencia a nossa filha mais nova (não morava mais conosco quando do incêndio), novamente água, muita água, no chão, nas paredes, e no teto em forma de goteira. Novamente percebi que as tomadas e interruptores, (assim como os lustres) pareciam chafarizes. Pouquíssimas coisas foram afetadas pelo fogo, mas a fumaça e a água do corpo de bombeiros fizeram um estrago considerável nos cômodos do segundo andar.
Descemos para o primeiro andar, a cozinha estava inundada, a sala de jantar estava com muita fuligem na paredes.

Pedi licença ao Tenente e fui ver o nosso cachorro (um cão da raça Akita ou Grande Cão Japonês). Ele estava muito assustado, abanou levemente o rabo e ficou deitado onde estava; fiz um carinho nele e voltei para o Tenente.

Os outros Bombeiros começaram descer.

Fomos para a varanda panorâmica e olhei para cima e vi que muitos tijolos, telhas e vigas de sustentação do telhado estavam perigosamente prestes a desabar; comentei com o Tenente e ele concordou, deu ordem para um subalterno para acabar de destruir o que estava muito perigoso.

O Soldado meteu a picareta em alguns conjuntos de tijolos e logo depois em uma viga que estava por um fio para cair. A viga caiu uns dez metros e foi certeiramente parar em uma tampa de bueiro de ferro fundido que se partiu em pedaços. Imagine se essa viga caísse numa pessoa desavisada que adentrasse a casa?
O último bombeiro desceu.
Começamos (eu, o Tenente e um Soldado) a tentar trancar as portas arrombadas.
Neste momento, meu telefone celular tocou; era a minha mulher:
- Então? Ainda tenho casa?
- Depois falamos meu amor.
- Só me diga, eu ainda tenho casa?
- Meu amor, não dá para falar agora, logo logo estarei aí com você.
Desligamos.
Demos um jeitinho nas portas, e começamos a descer a escada de acesso a garagem.
CONTINUA...

Anatomia de um incêndio - Quinta Parte

Esta é a quinta parte da série: Anatomia de um Incêndio.

Então como eu estava contando no final da quarta parte de Anatomia de um Incêndio, eu e o Tenente começamos a descer a escada que nos levaria de volta a alameda do condomínio em frente a nossa casa.
Chegamos a rua e a multidão de vizinhos e curiosos ainda estava lá, porém acrescida de mais alguns componentes. Uma viatura da PM estava nos esperando, ou melhor dizendo Me Esperando.
Mal coloquei os pés fora de casa e fui cercado por dois Policiais, um deles falou:

- O sr. é o dono da casa?

- Sim.

- Qual o seu nome?

- Respondi.

- Não, eu quero o seu nome completo.

- Respondi.

- Onde o sr. estava na hora do incêndio?

- Estava trabalhando.

- Onde?

Mais ou menos neste momento o Tenente do Corpo de Bombeiros interviu:

- O que os srs. estão fazendo aqui? Quem chamou vocês?

Os PM's não reponderam, mas (olhando para mim) disseram:

- O sr. terá que responder a algumas perguntas.

E continuou:

- Quero sua identidade e o seu CPF.

Eu respondi:

- Não está comigo, serve os números? Eu dei de cabeça.

Aí o Tenente do Corpo de Bombeiros se irritou:

- O sr. não tem que responder a pergunta alguma; a presença da Polícia Militar aqui nestas circunstâncias é completamente irregular.

O Tenente tomou as rédeas da situação e se dirigiu aos PM's com firmeza:

- O incêndio aqui não foi criminoso e o imóvel não possui seguro portanto a presença dos srs. é dispensável.

Os PM's ainda esboçaram algum movimento, mas o Tenente apontou para o seu próprio ombro (como que mostrando suas divisas de Tenente) e disse:

- A autoridade máxima aqui nesta ocorrência é do Corpo de Bombeiros e não da PM. (o PM mais graduado era um cabo).

Os PM's deram as costas e foram embora.
O Tenente acompanhou com os olhos os PM's até eles entrarem na viatura; foram embora.

Eu agradeci ao Tenente.

- Tenente, disse eu, nunca poderei agradecer sua atitude.

Ele não disse nada.

Em seguida chegou uma mulher que se apresentou como síndica do condomínio, acompanhada de um homem que esticou a mão para mim, eu retribuí, ele fez menção em me abraçar, não sei porque eu sutilmente me esquivei. Estendi a mão para a síndica (eu não a conhecia pessoalmente) ela não retribuiu, fiquei por alguns instantes com a mão estendida como um bobo.

A síndica se dirigiu ao Tenente do Corpo de Bombeiros e indagou:

- Eu sou a responsável pelo condomínio e gostaria de saber dos perigos e das implicações deste incêndio. Existe o risco de desabar e afetar outras casas?

Neste momento é que eu me lembrei que devíamos meses e meses de condomínio. E neste momento tive a exata dimensão da mesquinhez de alguns seres humanos, ela não olhou para mim, não me dirigiu a palavra e nem ao menos perguntou se eu estava bem.

O Tenente respondeu as perguntas da síndica:

- Não sra. o incêndio já foi debelado, não existe risco para ninguém, porém a sra. como responsável pelo condomínio terá que me acompanhar mais tarde para prestar esclarecimentos sobre questões de segurança do condomínio. Este condomínio está completamente irregular: Não tem brigada de incêndio, os funcionários não tem treinamento para essas eventualidades, não tem hidrantes ou extintores de incêndio ao longo das alamedas, enfim está tudo errado aqui.
O Tenente chamou um subalterno e mandou que ele anotasse o nome e o número da casa da síndica.

A mulher ficou branca, naquele momento eu tive a nítida impressão que ela estava muito mais nervosa que eu. Ela, como se diz, "perdeu completamente o rebolado".

Assim que a sindica se afastou, eu me dirigi ao Tenente e disse:

- Olha Tenente eu só tenho uma coisa e lhe dizer; muito obrigado!

O Tenente nada disse.

Perguntei a ele:

- E agora? O que eu faço?

Ele respondeu:

Aqui já está quase terminado, só vamos acabar de recolher o nosso equipamento e vamos embora, se o sr. quiser ir para conversar com sua esposa, pode ir; só quero conversar particularmente um minutinho com o sr.

Ele me levou para fora do alcance das vistas dos curiosos e disse:

- Olha sr. eu não tenho necessidade de interditar a sua casa; mas eu quero a sua palavra de honra que por no mínimo 15 dias o sr não vai mexer na casa; não quero o sr. aqui tentando reconstruir a casa nem mesmo retirando os escombros.

Eu disse:

- Ok, sem problemas, mas por que?

Ele respondeu:

- O seu relógio de luz foi desligado por nós, toda a instalação elétrica da casa foi comprometida pela água que usamos para apagar o fogo; eu preciso de pelo menos 15 dias para toda esta água descer pela força da gravidade para que o sr. chame um eletricista para começar os trabalhos de reconstrução da sua casa.

Eu disse:

- Tenente; o sr. tem a minha palavra de honra que antes de 20 dias eu não voltarei aqui senão para pegar objetos pessoais e roupas.

Ele retrucou:

Espero poder confiar no sr.

Eu disse que ele podia confiar em mim.

Apertei a mão dele, ele me deu um abraço, que eu retribui emocionado e fui em direção ao meu carro.

Entrei no carro, fechei a porta, liguei o motor, parei por alguns segundos; desliguei o motor, abri a porta e desci do carro. De algum modo o Tenente percebeu e veio em minha direção. Fui até ele e perguntei:

- Tenente, na sua experiência, como se diz para a esposa que a casa dela pegou fogo?

Ele respondeu:

- Não sei, eu assim como o sr. nunca passei por isso; mas se o sr. quiser um conselho eu acho que o sr. deve dizer a verdade sem esconder nada.

Assim, depois de apertar a mão mais uma vez de um dos homens mais honrados, que conheci em toda a minha vida, deixei o local do incêndio e fui me encontrar com a minha esposa.

CONTINUA...